MT, 23/10/17

Morte de cuiabana na Bolívia alerta sobre grupos de 'bonde da beleza'

GAZETA DIGITAL

Elayne Mendes e Keka Werneck, jornal A Gazeta     Arquivo

Intervenções oferecem riscos como todas A decisão de fazer uma cirurgia plástica, que oferece riscos como toda intervenção, não deve ser tomada sem os devidos cuidados nem movida por propagandas que ludibriam. Este é o alerta da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e do Conselho Regional de Medicina (CRM) em Mato Grosso, diante da grande movimentação de pacientes interessados em melhorar o corpo e que, atraídos por baixos preços, vão principalmente para a Bolívia e Venezuela. Muitos dos pacientes são captados por intermediadores e não conferem as condições locais. O alerta surge diante da morte da cuiabana Janeane Rodrigues da Silva Fidelis Klug Cresqui, 42, a Jhane, que neste final de semana foi fazer uma lipoaspiração associada a uma abdominoplastia, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. O corpo dela foi enviado para a família em um caixão. João Vieira

Morte de Jhane chama atenção para o problema “Eles levam grupos no ‘Bonde da Beleza’, juntam 10 e conseguem preço mais acessível, em países que estão em piores condições socioeconômicas que o Brasil, mas que, por isso mesmo, não têm regras rígidas sanitárias em hospitais e clínicas. É o barato que sai caro”, adverte o presidente da Sociedade, o cirurgião plástico Fernando Arruda. Ressalta que há especialistas confiáveis na Bolívia, mas também profissionais sem a devida qualificação e que fazem autopromoção enganosa. “Posso citar o caso de um que veio aqui fazer uma palestra, atrair pacientes, e divulgou ter formação na Universidade de São Paulo (USP) com um dos amigos meus. Liguei para ele e negou, disse que esse sujeito nunca passou por lá”. Segundo Arruda, após tais cirurgias, mortes e complicações tem sido mais frequentes, tanto é que já acionou o Ministério Público e a Defensoria Pública, para saber se tinham como interferir. “Responderam que não podem intervir em país alheio e então estamos de mãos atadas”. Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina, o cirurgião plástico Gabriel Felsky destaca que somente na Venezuela já são conhecidos pelo menos 18 óbitos. “Não tem nem medicamentos básicos devido à crise, como vão ter condições para operar?”, ressalta. A Resolução 2056/2013, do Conselho Federal de Medicina, impõe uma série de regras para consultórios, clínicas e hospitais funcionarem. “Especialidade por especialidade, equipamentos mínimos exigidos, medicamentos disponíveis, alvarás. E lá? Têm isso? Fazem os exames prévios que são fundamentais? Os pacientes recebem essas informações? No entanto, são livres para ir e vir”. Quanto ao preço, conforme o CRM são mais baixos principalmente porque não precisam atender a tantas exigências e não pagam impostos sobre próteses, como as mamárias. O cirurgião Fernando Arruda afirma que usam próteses da China, que são mais suscetíveis a infecções. “Não atendo pacientes que têm complicações pós-cirúrgicas vindos destes países, mas abri uma exceção para uma mulher que estava com infecção generalizada. Ficou 15 dias em estado grave internada aqui”, relata, chamando a atenção também para este problema.

Sonho estético Com desejo de aumentar os seios desde a adolescência, a esteticista Sâmara Alves, 27, se viu encorajada em ir para a Bolívia fazer a mamoplastia após 3 amigas retornarem do país vizinho com um bom resultado. Ela chegou a fazer orçamento em diversas clínicas em Cuiabá, mas não conseguiria pagar. “Então peguei o contato com umas amigas que já haviam ido para lá fazer cirurgia plástica, entrei em contato e pedi um orçamento. Ela logo me informou que ficaria em R$6.500, incluindo a consulta e os exames necessários”. Sâmara explica que tudo é pelo aplicativo Whatsapp. Ela encaminhou uma foto dos seios e informou o tamanho da prótese que gostaria de colocar. “Eu queria colocar 290 ml, mas quando cheguei na clínica, o médico disse que eu não ficaria satisfeita com o tamanho e me sugeriu colocar 350 ml. Fui pela opinião médica e não me arrependi”. A esteticista conta que foi em grupo com mais 6 mulheres que fariam cirurgias distintas. As pacientes eram de Cuiabá, Várzea Grande e Porto Velho. Sâmara saiu de Cuiabá dia 31 de abril e chegou em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, no dia 1º de março. Rapidamente, ela e as demais mulheres foram encaminhadas para a clínica, onde passaram por um questionamento e exames preliminares exigentes. No dia seguinte, ela já entrou no centro cirúrgico. Após o procedimento, foi encaminhada para uma casa de repouso, onde uma enfermeira e uma auxiliar cuidavam dela e das demais pacientes. “Eu fiquei lá até o dia 7, quando recebi alta. E assim com fui, voltei de ônibus e graças a Deus está tudo bem e não tive problema nenhum”. Assim como Sâmara, a cabeleireira Lucineia Paixão, 38, também foi para a Bolívia em um grupo formado por mulheres de várias cidades do país. Só que ao contrário da esteticista as cirurgias pelas quais passaria não deram certo e ela quase morreu. Ela foi para lá fazer uma abdominoplastia e mamoplastia, em junho de 2016. “Primeiro o médico colocou as próteses e tudo estava indo bem, até que iniciou a cirurgia no abdomen e minha frequência cardíaca foi caindo. Rapidamente me deram adrenalina e os batimentos voltaram ao normal”. Mesmo após o susto, o médico finalizou a segunda cirurgia e deu alta para a cabeleireira. Ainda no caminho de retorno para Cuiabá, ela começou a ter febre. “Quando cheguei fui direto para a Unidade de Pronto Atendimento, onde foi constatada a infecção generalizada. Fiquei na UTI por 15 dias. Segundo o médico, o motivo seria a falta de esterilização adequada dos equipamentos utilizados”.

Amparo judicial Nos casos como o de Jhane, se a família da vítima pensar em acionar judicialmente ou pedir investigação do médico ou clínica na Bolívia, terá que cumprir um caminho difícil. O advogado Cláudio Stábile explica que quanto à investigação, teria que fazer um pedido formal ao governo boliviano. Do ponto de vista judicial, o caminho é acionar no país onde a cirurgia ocorreu ou no sistema judiciário mato-grossense. “Isso se a captação entrou em nosso território ou se as negociações foram feitas via internet também dá para entrar por aqui, caso contrário não”. O judiciário local, através de carta rogatória e contando com tratados entre as nações, pode solicitar que o acusado preste depoimento na cidade de residência dele. Pode também pedir perícia à polícia de competência. Porém, tudo isso demanda tempo. “É trabalhoso, vai depender de outro sistema policial e judicial, outra cultura”. 

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