MT, 29/06/17

EDITORIAL E ARTIGO: Amar, de menos a mais

GAZETA DIGITAL

  Gonçalo Antunes de Barros Neto     Se fosse objeto de sua reflexão o amor e o ódio, começarias por qual? Se pelo ódio, bem provavelmente não chegaria a bom termo, ou, talvez, a um terreno movediço, patinarias até entender algo muito simples: que não se começa pela medida, mas, sim, pela coisa em si. Começarias perguntando se o ódio é parte integrante da vida. Se ele, o ódio, é necessário para se descobrir e descortinar o tamanho das paixões, dos interesses, dos erros, e assim sucessivamente. Muito provavelmente, no final, indagaria se quem inventou o amor também teria criado a medida de sua intensidade, o ódio. Ou, ainda, se o ódio é somente a ausência de amor. Portanto, descobririas que tomou caminho inverso e recomeçarias pelo amor, que é o que interessa como objeto de análise, sendo o ódio somente o estorvo, a medida com a qual o distinguirás em dimensão e intensidade. Coloquemos a questão de outra maneira, talvez mais didática. Se amássemos, somente, objetivamente teríamos consciência disso? Quais seriam as consequências desse amor singular, único e universal, e sem que se tenha, dele, conhecimento quanto à intensidade? A densidade do ódio deduz-se empiricamente, somente experimentando e observando, o conhecemos sem mais reflexão. Aqui serás como os céticos, suspenderás o juízo. Agora, já com a fita métrica em mãos, olharás por sobre ele,e conseguirás enxergar o que sobra, e o que sobra é suave e limpo, de tantos e quais metros quantos o alcançamos em sorrisos e satisfação. O que sobrou não se joga aos porcos, recolhemos como essência. A religiosidade (diferente de religião) indica caminhos e neles não se vê lugar para o ódio. Certo? Pois bem. Os fariseus crucificaram movidos por amor? O ódio ajudou a cumprir as escrituras. Era necessário o Cordeiro ser sacrificado. Agora, temos o ódio como integrante da vida. E já conseguimos responder às perguntas: ele, em si, existe racionalmente ou é mera ausência de amor? O ser o carrega em sua essência ou o maquiniza como sentimento necessário às adversidades? O ódio seria uma espécie de fita métrica em que medimos a intensidade do amor, de forma consciente ou não, em determinadas situações? Ou, ao contrário, concorre com o amor em intensidade e grau? As relações da vida, de poder, portanto, são de duas ordens: fundamentadas no amor (e variações de acordo com a intensidade) ou na sua ausência. A vida não é mais binária, em apertada síntese: bem e menos bem (até o mal, que é a ausência absoluta do bem), bom e pior(até o mau, que é a ausência absoluta do bom), e assim por diante, bonito e menos bonito (até o feio), corajoso e menos corajoso (até o covarde) etc. Assim as leis são feitas, inclusive as da moral. Sua aplicação e cumprimento ensejam intensidades. O que se faz com elas, também. E o Estado? O Estado é somente o cabo do chicote, manuseado por seres, que amam, mas também amam de menos. É por aí... Gonçalo Antunes de Barros Neto escreve aos domingos em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).

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